Muitas pessoas questionam quando, num sábado à 11 horas da noite, tenho que voltar para casa quando a galera toda vai para a festa:
– Por que vai embora?
E eu respondo:
– Amanhã eu treino!
– Ah é? Você é jogador de futebol?, perguntam eles.
– Eu não jogo futebol, sou ciclista.
O efeito da resposta pode ser notado claramente no olhar e no rosto daqueles que perguntam. Uns expressam seu assombro: ciclista? Outros ficam calados. Outros riem.
A bicicleta é esse cacareco que o mundo todo usou alguma vez; pelo qual se tem predileção quando se é pequeno, porque te faz sentir livre, feliz, rápido, intrépido, porque sente que o ar esfrega cada parte do teu ser, porque te faz voar acima do chão.
Esse objeto de prazer infantil, hoje se torna o mais fiel instrumento para a glória, passando pelo inferno prévio, o que te acompanha nesse esporte tão duro e extenuante que te faz perder a consciência, por o coração a 220 pulsações.
Num esporte tão duro, desesperante, é preciso ser paciente e ter sangue frio. Além disso, tem que ter cabeça, inteligência, não só pernas. A cabeça faz falta não só para abrigar o capacete, mas também para permitir ver uma fuga, imaginar uma louca estratégia que te leve ao sucesso, ver as quedas e pontos fracos do oponente, enquanto escala por uma subida a 200 pulsações por minuto.
Um esporte que é um estilo, uma forma de vida. Acho o esporte de mais orgulho pessoal, onde só o próprio esforço do teu corpo te faz ser capaz de percorrer muitos quilômetros; onde cada treinamento é uma superação pessoal; onde cada dia que pegas a magrela, carregas a sacola da tua vida com um episódio novo.
É um esporte que te faz brilhar, que te faz chegar ao ponto mais alto, só você… Onde por muito que tenha, não é ninguém se não é bom, se não tem classe, se não tem raça, se não tem coragem.
Um esporte onde tem que ser especial, tem que ser de outra categoria, pois bom ciclista não pode ser uma pessoa qualquer.
Não é qualquer um que acorda, no domingo com chuva, às 5 da manhã, para ir a uma corrida a mais de 100 km de casa! Porque é um esporte tão duro, que as quedas fazem parte do nosso dia a dia.
Onde as clavículas, pontos de sutura, aranhões e joelhos esmagados são o pão de cada dia. É o amor pelo esporte, pela bici, pelo sacrifício que te faz tocar o céu, com montanhas de mais de 2000 metros, com caminhos que só 3 mais conhecem, com subidas onde nem um carro consegue chegar, mas um homem, com seu sacrifício, aguenta, enquanto pensa “sou o melhor”, “vou vencer, vamos lá”.
É esse esporte que te faz emocionar qualquer um: quando chega ao ponto mais alto. Quando treinas a 5 graus, ou quando voltas para casa, à noite, molhado e com muito frio. Quando pedala longe de casa só para ver uma paisagem. Quando fica esmagado. Quando corre até com dor no ombro. Quando sentes a emoção das pessoas torcendo por você. Quando tens uma ilusão. Quando cada dia que estás na bici, tens orgulho, te faz crescer como pessoa, amadurecer. A bicicleta te deixa pensar nos problemas e olhar as coisas de outra maneira, porque o esporte forma o caráter. Por isso você é “de outra categoria”, você é ciclista.
O reconhecimento, as medalhas e o dinheiro são sempre iguais. Só caminhos, um par de amigos, e nossas bicicletas. Há de ser muito homem para descer, a 70km/h, em um caminho molhado pela chuva, sabendo que do solo, estamos acima de duas rodas tão finas como moedas.
Por isso pode se sentir o orgulho de representar um país, uma região, uma turma de amigos. Porque todo aquele que tenha a vontade de andar de bicicleta, seja profissional, amador ou bem “domingueiro”, merece admiração. Porque quando vai de bici é maior. Porque quando vences a vontade de ir para casa pensando: “isto não é para mim”, “eu não sirvo para isso”, vence a mediocridade. Mas ali se vê quem é para valer e quem não é: quem atira a toalha e vai para casa, ou quem aguenta, sofre e segue até que o pulsômetro diga “pare”!
Por que o faz? Porque você é ciclista. Porque o único oponente é você mesmo. Porque sempre vai ser assim, até a morte. Porque você é um esportista dos pés à cabeça. Porque é um sofredor nato, e tem valor!
Fonte: Revista Bicicleta, edição 02/01
Autor: Edgardo Jorge





