Tudo precisa estar em movimento. Para esta revista chegar até a sua casa, várias pessoas estiveram envolvidas, desde a elaboração das matérias até o último estágio: a entrega em seu endereço. Da mesma forma, muitos outros produtos e correspondências precisam ser levados até o destino, e para isso, são utilizados diferentes meios. Um deles é a bicicleta.
Pela eficiência, pela não poluição sonora e ambiental, e por todos os benefícios que um carro a menos representa para nossas já saturadas vias de trânsito urbano, a bike é uma forma inteligente de colocar tudo em movimento: inclusive o mensageiro que a pedala.
Entre as viagens e expedições de bicicleta que guio durante o ano, trabalho em Munique, Alemanha, como bike courier (mensageiro a pedal). É uma forma de manter a preparação física ideal para as longas viagens e um modo de conhecer melhor a cidade em que vivo desde 2009.
Um Pouco de História
Enquanto em Nova lorque, nos Estados Unidos, o serviço já existia desde a década de 70, na Europa os mensageiros sobre duas rodas surgiram em 1985, com Kurt Wolfram, um arquiteto de Munique. Ele fundou a empresa Fahrrad Kurier München (FKM), para qual eu trabalho.
Depois surgiram outras empresas nas grandes cidades europeias. Atualmente há diversas concorrentes no ramo, mas existe trabalho para todos.
Nos anos 80 e 90, o visual dos bike couriers foi se transformando em um estilo de vida, identificando um modo peculiar de se vestir. As bicicletas usadas sofrem algumas alterações minimizando os custos e o desgaste de material. A bicicleta típica de um mensageiro é de marcha única, conhecida também como fixie.
Nos anos seguintes apareceram diversos encontros e até campeonatos entre bike couriers, em que a disputa girava em torno da rapidez, orientação e técnica. 0 primeiro campeonato mundial foi disputado na capital alemã, Berlim, no ano de 1993.
O filme Quicksilver, com o ator Kevin Bacon, foi lançado em 1986 e conta a história de um bike courier, mostrando um pouco do dia a dia desses profissionais nos Estados Unidos.
Kurt Wolfram, fundador da FKM, explica que os principais motivos para oferecer esse serviço em Munique são:
– A rapidez nas entregas. Na cidade, em um trecho de até cinco quilômetros de distância, a bicicleta é o veículo mais rápido de todos, pois não necessita, por exemplo, de uma área especial de estacionamento e tem caminho mais livre por ciclovias, com menos trânsito.
– O serviço é mais barato que os mensageiros de carro ou moto.
– Consciência ecológica, pois evita a emissão de poluentes.
Como Funciona o Trabalho
O mensageiro trabalha normalmente como autônomo e ganha por entrega. Não é um trabalho fácil e exige bastante fisicamente, pois trabalha-se o ano inteiro debaixo de sol, chuva ou neve. Mas quanto mais entregas forem realizadas, melhor o rendimento financeiro.
Os valores são calculados de acordo com as distâncias do local de entrega; o peso também influencia no custo. Em média, são pedalados 80 a 100 quilômetros por dia. São aproximadamente 6000 calorias queima¬das diariamente, e no inverno a queima de calorias quase duplica. No início, lembro-me de como chegava acabado em casa.
Normalmente existe um escritório central que recebe ligações e pedidos dos clientes. A central entra em contato, via celular ou rádio, com o mensageiro que estiver mais perto do local, e este faz a entrega.
Entrego normalmente documentos e pastas, mas também tive algumas entregas estranhas como carregar larvas vivas para um criador de aves ou exames médicos (de todos os tipos) para laboratórios e hospitais.
Quando comecei a trabalhar, vivia consultando o guia de ruas da cidade. Perdia tempo procurando ruas e, às vezes, entendia errado o endereço e pedalava alguns quilômetros à toa na direção contrária. Com o tempo, tudo fica mais automático.
Primavera e verão são as melhores estações; na espera de entregas, sento-me em bancos de praças ou parques e curto um pouco do sol, lendo algum livro.
No inverno, além do frio e da neve, existe o perigo de escorregar em ruas congeladas ou nas linhas de bondes que cruzam a cidade. Quando chove é ainda pior, pois a água e o próprio suor vão encharcando tudo.
Talvez o emprego de bike courier esteja na lista de extinção. Se há vinte anos um mensageiro carregava o equivalente a um megabyte em sua mochila, hoje as fotos, arquivos e mensagens podem ser enviados por e-mails ou algum tipo de software, rapidamente via internet.
Enquanto não estou extinto, vocês podem me encontrar pedalando pelas ruas de Munique ou em algum canto desse mundo…
Fonte: Revista Bicicleta, edição 10/01
Autoria: Fábio Zander





