Perguntei a diversas mulheres o motivo de não pedalarem nas ruas e mais de 80% disseram que era por falta de segurança. A segurança a que elas se referiram está 100% atrelada ao modo agressivo e desrespeitoso com que os motoristas conduzem seus carros pelas ruas das cidades. Por isso o desafio tornar-se muito maior, pois não basta investir apenas em ciclovias, é necessário investir também em campanhas de cidadania e educação.
É fato que as pessoas estão se tornando cada vez mais impacientes, intolerantes e consequentemente agressivas. Não conseguem perceber que aquele que se sujeita a conduzir um carro em metrópoles invariavelmente enfrentará longos congestionamentos.. É inexorável. Nenhum cidadão consegue controlar o trânsito, melhorá-lo com gritos e xingamentos, com buzinação e agressividade. A única coisa que está sob controle do motorista é o controle de si mesmo, a decisão que ele pode tomar entre alimentar o sentimento de irritação, frustração, agressividade, raiva ou então entender claramente que o trânsito caótico de grandes cidades é um problema a ser resolvido a longo prazo, e que todas as pessoas que estão nas ruas e avenidas, sejam eles carros, motocicletas ou bicicletas, exatamente todos, têm os mesmos direitos.
Está sob o controle do motorista entender que sobre uma bicicleta há outro ser humano igual a ele, com os mesmos direitos, os mesmos sonhos, as mesmas vontades, e que merece ser respeitado.
O comportamento agressivo dos motoristas não está mais relacionado somente aos homens; as mulheres também adotaram postura semelhante. Faço um convite às mulheres que se sentem poderosas ao pilotar um carro de forma violenta, muitas vezes colocando a própria vida em risco, que venha sentir o
verdadeiro poder sobre uma bicicleta. A bicicleta lhe dá liberdade, e uma verdadeira sensação de poder – o poder da realização, o poder da superação, o poder de chegar onde quiser com o esforço do próprio físico e determinação.
As mulheres que desistiram do automóvel para usar a bicicleta como meio de transporte, perceberam que a vida pode ser e é muito mais divertida, muito mais gratificante sobre o selim de uma bicicleta. Como tornar as ruas mais seguras? Com muito respeito, com muita cidadania, com muita educação e amor ao próximo.
Celso Kassa, consultor esportivo e personal biker, morou 16 anos no Japão e há dois anos voltou para o Brasil. Ele garante que, com relação ao uso das bicicletas como meio de transporte, a grande diferença entre o Brasil e o Japão é a cidadania e o respeito ao ciclista. A bicicleta é considerada um meio de transporte e todos a respeitam como qualquer outro veículo.
“Em Tóquio, por exemplo, não existem ciclovias, as bicicletas circulam livremente pelas ruas compartilhando o espaço com os carros e motos. As mulheres chamadas de office ladies usam bicicletas como meio de transporte. Mulheres vestidas com roupas sociais, de meia fina e salto alto, costumam usar duas bicicletas no percurso de casa para o trabalho; uma usada de casa até o trem e outra bicicleta da estação de trem até a porta do escritório”, cometa Celso.
Aqui no Brasil ele confirma que a grande maioria das mulheres teme a falta de segurança no trânsito, mas garante que é possível aumentar sensivelmente a segurança se a ciclista souber como se comportar na bicicleta em meio às ruas e avenidas.
Mas de 80% das mulheres que fizeram o curso no CicloFemini comigo começaram a pedalar como uma forma de exercício. Depois da segunda ou terceira
aula se entusiasmam e começam a planejar e a cogitar o uso da bicicleta como meio de transporte.
A fisioterapeuta Ana Maria Peres Cardoso, que trabalha com atendimento domiciliar, após uma viagem à Holanda adquiriu o hábito de andar de bicicleta. Voltando ao Brasil, começou a usar a bicicleta para algumas atividades, como ir à feira e a lugares mais próximos de sua residência. Usava a bicicleta nos dias de menos movimento, como sábados e domingos. Ana contou que não se esquece de uma cena que viu na Holanda: uma mulher de bicicleta a caminho de uma festa, trajando um vestido preto, com meias finas, salto alto e guarda chuva, pois estava chovendo. Ela contou que o príncipe da Holanda tem como hábito levar o filho à escola de bicicleta.
Com estes exemplos fica claro que andar de bicicleta vai além da educação, da cidadania, da cultura. Andar de bicicleta é um estilo, uma opção sensata e agradável de vida.
Ana Maria contou que após um problema de saúde percebeu a necessidade de praticar exercício, de manter-se em movimento. Como fazia os atendimentos próximos de sua residência, resolveu fazer o percurso de sua casa até a casa dos pacientes a pé. Após um período, as distâncias ficaram mais longas e ela resolveu usar a bicicleta definitivamente como seu meio de transporte. “O importante para andar com segurança no trânsito é tornar-se visível, usar uma jaqueta amarela refletora. É feita de um tecido muito fino e leve, especificamente para a sinalização do ciclista”, recomenda Ana Maria.
Usar a bicicleta como meio de transporte é um processo. Deve-se iniciar aos poucos até sentir-se segura para percorrer longos percursos. “O andar de bicicleta aumentou o meu equilíbrio e a minha percepção visual, não apenas para andar de bicicleta, mas para outras situações também. Andando de bicicleta, além do bem estar que sinto, sou muito mais feliz”, finaliza Ana Maria.
Cleber Ricci Anderson, ciclo-ativista, proprietário da Anderson Bicicletas e colunista do Jornal Metro, concorda que andar de bicicleta com segurança pelas ruas é uma questão de cidadania, educação, cultura e gentileza. Cleber é um profundo estudioso e pesquisador do assunto, e há muitos anos vem desenvolvendo um trabalho focado na orientação das pessoas que desejam usar a bicicleta como meio de transporte.
“É necessário fazer um planejamento antes de simplesmente pegar a bike e sair pedalando pelas ruas. É necessário conhecer as regras de trânsito relacionadas à bicicleta, é necessário conhecer os percursos recomendados do seu ponto de saída até o destino. Via de regra o percurso que será feito de bicicleta não será o mesmo que se faz com o carro. Com a bicicleta, o ideal é usar as vias alternativas e de menos movimento”, recomenda Cleber.
Para facilitar a vida da ciclista, Cleber desenvolveu o Guia de Bike na Rua. Neste guia a ciclista encontrará todas as informações e dicas fundamentais para poder andar de bicicleta com segurança pelas ruas de sua cidade.
“Recomendo que a ciclista faça um planejamento de sua rota. Após o planejamento, deve-se percorrer o
trajeto em um dia de menos movimento, para ter certeza de que definiu a rota correta. Há um excelente guia de rotas na internet, é o Bikemap.net. Neste guia há inúmeros rotas já traçadas e é possível planejar, traçar e gravar uma rota pessoal”, finaliza Cleber.
“Uso a bicicleta como meio de transporte há três anos, mas ganhei mais confiança no último ano, depois de conhecer e planejar melhor as rotas e também de andar melhor depois de ter participado de um curso de pedal urbano”, comenta Ludmila de Carvalho Oliveira, socióloga e professora de francês.
Ludmila morou muitos anos em Florianópolis e usava a bicicleta em todas as atividades. “Devido à falta de cultura dos cidadãos, a mulher enfrenta muitas dificuldades para ter a bicicleta como seu meio de transporte. Existe preconceito e desrespeito. O que mais me incomoda é o desrespeito de alguns motoristas e motoboys. Os motoboys fazem muitas gracinhas, e alguns até tentam um contato físico. É lamentável, pois fica evidente que a população em geral não está preparada para ter um ciclista na rua, principalmente se este ciclista for mulher. Minha família não me incentiva muito, eles se preocupam demais com a minha segurança. Recebo mais críticas do que incentivo, mas mesmo assim não abandono a bicicleta por nada”, comenta Ludmila.
“O importante para andar de bicicleta na rua é o planejamento. É tudo muito simples, basta se organizar e pesquisar o percurso. A confiança aumenta à medida que você se familiariza com o trajeto”, resume.
“A forma como as mulheres vêem o uso da bicicleta no dia a dia está orientando os planejadores de cidades interessadas em implantar redes de ciclovias. Mulheres pedalando é o melhor indicador de quão pedalável é a cidade. De forma geral, concordo que as mulheres são um dos termômetros da ciclobilidade nas cidades. São as mais frágeis, mais suscetíveis à violência urbana. Quanto mais usarem a bicicleta, melhor a cidade será para todos! Está aí uma coisa que nossos vereadores e prefeitos precisam pensar, se algum dia chegarem a cogitar implantar ciclovias: sigam as mulheres!”, comenta Rogério Fagundes Leite, Químico Industrial pela UFPe/Recife-PE, Mestrado em Eng. de Materiais pela UFSCar/São Carlos-SP, ciclista urbano e cicloativista.
Concluo que a fórmula para o pedal seguro é a combinação de educação, cidadania, respeito ao próximo, planejamento de rotas e conhecimentos de regras básicas. De saia e salto alto, mulheres que enfrentam o trânsito sobre duas rodas são agentes de transformação. Muito femininas, sem sentirem-se frágeis e desprotegidas, estas mulheres economizam tempo e dinheiro, cooperam com o meio ambiente e de sobra ganham saúde, disposição e beleza.
Fonte: Revista Bicicleta, edição 05/01
Autora: Cláudia Franco





