O ensaio “As easy as ride bicycle?” (Tão fácil como andar de bicicleta?), da pesquisadora Catherine Hess, pós-graduada em antropologia na Universidade de Bournemouth, foi muito elogiado e ficou em segundo lugar no prêmio Wellcome Trust de redação científica. A Wellcome Trust, fundada em 1936, é uma organização com sede em Londres, no Reino Unido, que financia pesquisa científica (a maior financiadora não-governamental do país e uma das maiores do mundo).
A autora afirma que a bicicleta representa uma espécie de rito de passagem para a criança, que cria um vínculo emotivo com o ato de andar de bicicleta. Mas há uma complexidade incrível nesse ato aparentemente simples, a começar pelo equilíbrio necessário para que o ser humano se impulsione sobre duas rodas finas, deslocando-se em diferentes superfícies com o constante movimento das pernas.
O mais extraordinário, porém, são as funções cerebrais exigidas ao andar de bicicleta. Em 2010, pesquisadores da Holanda publicaram um estudo de caso em que médicos examinaram pacientes com Parkinson, doença neurológica que resulta em tremores e movimentos musculares involuntários e pode afetar o equilíbrio, coordenação e pode deixar os pacientes incapazes de andar e realizar tarefas básicas. Na pesquisa, um senhor de 58 anos, que sofria do chamado “congelamento de marcha”, logo perdia o equilíbrio quando começava a andar. Mas, de maneira surpreendente, ele conseguia perfeitamente andar de bicicleta, com movimento e equilíbrio, sem os fortes tremores nos braços. Ele pedala, para e desmonta da bicicleta, porém, assim que sai da bicicleta, é incapaz de andar novamente.
O fenômeno é conhecido como cinesia paradoxal. Embora ainda seja algo incompreendido, o conhecimento é inestimável e pode levar a novas formas de terapias e exercícios físicos para doenças neurológicas, como a doença de Parkinson. Por enquanto, a tática da bicicleta está sendo sugerida para diferenciar o Parkinson e uma outra forma rara e atípica da mesma doença. Os indivíduos com Parkinson que sabiam pedalar antes do início dos sintomas mantêm a capacidade; aqueles com Parkinson atípico não conseguem. E incrível como um ser humano preso à cadeira de rodas consegue andar de bicicleta.
Uma pesquisa americana liderada pelos professores Mont Hubbard e Ron Hess está tentando modelar as interações homem-bicicleta de maneira semelhante às interações piloto-avião ou motorista-carro. Mas o que se descobriu é que há muitos mais processos físicos e neurológicos envolvidos no andar de bicicleta do que dirigir um carro. Hess afirma que “andar de bicicleta envolve o uso contínuo de todas as capacidades sensoriais primárias do ser humano, visual, vestibular (equilíbrio) e proprioceptivo (a consciência do próprio corpo e do posicionamento dos membros)”.
Todas essas pesquisas sobre o cérebro humano e sobre a bicicleta demonstram que, apesar da aparente simplicidade, falta-nos aprender muito sobre como conseguimos controlá-la. Aquelas primeiras pedaladas, meio vacilantes, tornam-se um evento muito mais extraordinário do que imaginávamos.
Fonte: Revista Bicicleta, edição 23/03
Caderno: Time Trial





