Relacionar bicicleta e sustentabilidade é muito fácil. No momento de falar sobre o assunto, não faltam argumentos ecologicamente corretos para defender a magrela. Bicicletas a parte, o maior impacto que o ciclismo pode gerar ao meio ambiente vem do ciclista. Apenas ser ciclista não torna ninguém salvador do planeta: é preciso ser ciclista consciente.
Atualmente, há um movimento muito positivo de incentivo ao uso da bike e a causa ganha cada vez mais adeptos. Amadores, profissionais e amantes da bicicleta estão fazendo-se ouvir e propagando os benefícios da prática de pedalar, tanto para a saúde própria como para a saúde de todo o meio ambiente.
O vilão desse conto de fadas pode ser a imprudência do ciclista quanto ao lixo produzido durante a pedalada. Inevitavelmente, produz-se lixo; a questão é o que fazer com ele. Garrafas, recipientes de isotônicos, copos descartáveis, tampinhas, lacres, papel, fragmento de peças da bike e vários outros materiais inorgânicos são lançados à natureza. Esse lixo produzido e, de forma desrespeitosa, deixando ao longo das trilhas, provoca poluição de meio ambiente e gera um impacto negativo que pode demorar muito para ser revertido.
Temos a falsa impressão de que nosso lixo é pouco para gerar algum impacto na natureza. Mas é exatamente esse pouquinho meu aqui, que junto com o seu pouquinho aí, criam situações de poluição muitas vezes irreversíveis, como o comprometimento de ecossistemas e a contaminação das águas.
Outra falsa impressão com relação ao lixo é que depois que nos livramos dele, ele não é mais problema nosso. É o mesmo que afirmar que não nos preocupamos com nossos filhos ou netos! Fala-se tanto em sustentabilidade justamente por isso: o planeta – e todos os seus recursos – tem que ficar aí, para as próximas gerações.
Recolher o lixo na trilha é um primeiro passo. Depois disso, a preocupação com o lixo não deve se limitar à passagem, ou não, do caminhão que o recolhe em frente a nossa casa. Quando o lixo é recolhido, ele ainda existe em outro lugar. O recomendável, então, é ter bom senso e não consumir mais do que o
necessário. O lixo produzido durante um passeio ou uma competição não fica na frente da nossa casa e, por isso, parece não incomodar. Mas tenha em mente que a limpeza das trilhas pode ser muito difícil, por se tratar de áreas onde a natureza predomina e muitas vezes, onde apenas bicicletas têm acesso.
Quem escolhe a bicicleta já ganha pontos importantes no quesito sustentabilidade; mas isso só não basta. As práticas em prol do meio ambiente vão além de trocar o carro pela bicicleta. Respeitar nosso lar – o planeta – envolve ações simples, pequenas e corriqueiras, como ser responsável pelo lixo que produzimos em qualquer situação, inclusive andando de bicicleta.
Paulo de Tarso, presidente do Sampa Bikers, organiza passeios e competições de bicicleta desde os 15 anos. Ele comenta suas impressões sobre este problema.
“Estou envolvido com a organização de eventos de bicicleta desde os 15 anos, quando organizei a primeira corrida ciclística da cidade de Pouso Alegre/MG, onde morei dos 14 aos 19 anos. Na época, eu era diretor esportivo de uma entidade de jovens. Depois fui estudar no Rio, onde me tornei diretor da FEURJ (Federação Universitária do Estado do Rio de Janeiro) e, em 1992, quando vim parar em São Paulo, fundei o Sampa Bikers, onde realizamos importantes competições de mountain bike.
Além disso, organizamos várias cicloviagens no Brasil e no mundo. Um dos meus lugares preferidos é a cidade mineira de Passa Quatro, nas Terras Altas da Mantiqueira, onde uma vez por ano realizo uma viagem com o grupo do Sampa Bikers. A cidade ficou conhecida por uma competição que realizamos lá: o Power Biker, durante oito anos (até 2009) . A região se firmou como um dos melhores locais para a prática de mountain bike, depois que o Big Biker também começou a organizar uma etapa na cidade vizinha, Itanhandu.
Resumindo, são milhares de ciclistas que pedalam hoje pelas trilhas da região, mas alguns desses – uma minoria – não têm dado o devido respeito à natureza de que tanto precisamos, não só para sobreviver, mas também para praticar nosso querido esporte.
É preciso conscientização diante deste fato: uma coisa horrorosa que observei durante a semana santa, pedalando nas estradinhas da região, por onde passa o Big Biker e por onde passou o Power Biker, foi o lixo deixado no caminho por ciclistas competidores e de outros grupos que pedalavam por lazer.
Recolhi uma grande quantidade de embalagens de gel e copinhos de água, lixo deixado durante a prova que havia acontecido há mais de um mês. Ainda hoje encontro embalagens de gel de provas que aconteceram há mais de dois anos.
Em praticamente todas as competições, uma minoria de competidores tem a péssima mania de jogar lixo no chão, normalmente nos cantos, próximo ao mato ou bem após o ponto de água, e quase sempre em locais de difícil visibilidade para quem organiza. Por isso, quando fazemos a vistoria de limpeza da trilha, muito desse lixo não é visto. Quem tem essa atitude não está desrespeitando apenas o próximo ou a sim mesmo: está desrespeitando a vida.
Conheço praticamente todos os organizadores de competições de MTB, e todos têm a consciência de que é preciso limpar o circuito após a realização da prova. Isto é de praxe, pois além do lixo gerado, uma simples prova de mountain bike traz outros impactos ao meio ambiente, direta ou indiretamente. Uma
das formas de combater essa situação, adotada em algumas competições, é a perda de pontos para ciclistas que sujam a trilha.
Quem anda de bicicleta e pratica mountain bike jamais deveria pensar em jogar lixo na trilha. Infelizmente, essa minoria mancha um esporte com o qual pessoas com atitudes sustentáveis se identificam, pela proximidade com a a natureza, pela não poluição das bikes e pelo bem-estar e saúde que este esporte oferece. O verdadeiro biker tem em mente estes princípios.”
Adote uma postura ecologicamente saudável e consciente. Seja responsável pelo lixo que você produz em suas pedaladas e, além disso, adote os três caminhos para restringir o lixo descartado:
1. REDUZA: Economize no consumo. Há produtos que têm uma vida útil maior e outros podem ter várias utilidades. Procure evitar produtos descartáveis e produtos que não são tão necessários. Planeje-se e evite o desperdício.
2. REUTILIZE: prefira produtos que servem como refil e que poderão ser utilizados novamente. Há materiais e recipientes que podem ter mais de uma utilidade. Uma embalagem pode ser utilizada para guardar produtos de limpeza ou mantimentos, por exemplo.
3. RECICLE: Primeiro crie o hábito de separar o lixo reciclável dos materiais orgânicos. Depois, use a criatividade: você pode descobrir um hobby prazeroso e fazer a sua parte para auxiliar a redução do lixo. A reciclagem é importante tanto para dar um destino ao lixo produzido, quanto para economizar na utilização de recursos naturais. Por exemplo, para criar uma tonelada de papel novo, são necessários 50 a 60 eucaliptos, 100 mil litros de água e 5 mil KW/h de energia. Para criar uma tonelada de papel reciclado, são necessários 1.200 kg de papel velho, 2 mil litros de água e 50% da energia.
Quando estiver pedalando em um lugar repleto de belezas naturais, lembre-se de que você deve devolver este lugar da mesma forma que o encontrou. Se cada um fizer a sua parte, todos ganham.
Fonte: Revista Bicicleta, edição 08/01
Autor: Anderson Ricardo Schörner





