Manifestar para outra pessoa o desejo de que ela seja feliz no ano seguinte significa, na maioria das vezes, que queremos que a vida dela seja próspera independentemente das desgraças do mundo, e não que o mundo torne-se bom para todos. E as campanhas de doação de brinquedos usados que ocorrem nessa época do ano fazem mais do que confirmar que as coisas desse mundo não têm sido igualmente distribuídas para todos.
Um ciclo é completado pela Terra em torno do Sol – translação – a cada 365 ciclos que ela completa em torno de si mesma – rotação. Portanto, podemos dizer de boca cheia e do fundo do coração: “Feliz Ano Novo”, porque estamos nos referindo a um fenômeno que realmente irá ocorrer, independentemente da convicção de quem quer se seja. É um desejo mais pleno de sentido universal do que quando dizemos “Feliz Natal”, dado que a crença cristã não é compartilhada pela maioria dos terráqueos, e dado que a contínua ‘papainoelização’ da data afoga ano a ano todo significado de paz, fraternidade e simplicidade em favor do comprar, comprar e comprar.
Um ciclo é um belo presente que uma pessoa pode comprar para outra, com a vantagem dele também ser bom para a sociedade e para a natureza. Explicando: ciclo, conforme o Código de Trânsito Brasileiro, é todo “veículo de pelo menos duas rodas movido à propulsão humana”… Uma bicicleta sempre foi um presente encantador, alegre, carregado de significado, seja qual fora a idade de seu ganhador. É a concessão de uma nova liberdade, um voto de confiança na responsabilidade, uma ferramenta que estende os horizontes, que estimula a destreza e que amplia o convívio voluntário. Só falta, é claro, lembrarão os leitores, que a bicicleta seja benquista pelo administrador público.
Infortunadamente, os prefeitos não concordam com isso, pois o que eles chamam de “presente para a cidade”, entregues muitas vezes nos finais de ano, não são mais do que estorvos que aprofundam a crise urbana. Pistas duplas e viadutos, que são benzidas e manchetadas, são demandas da sociedade automovel-crática, e não benfeitorias públicas. Ao invés de inaugurarem um novo ciclo – um novo período, uma nova fase – de desenvolvimento urbano, de valorização humana, de respeito ao dinheiro dos impostos, importa a eles continuar repetindo o ciclo, obrando do mesmo modo, amparado em invariável mentalidade, seguindo os mesmos erros de seus antecessores e de seus vizinhos.
Mas também não podemos ficar só esperando pelos prefeitos. Se quisermos ciclar em paz pela cidade, se quisermos que nossos filhos possam ir para a escola com autonomia, se querermos que no final do próximo ciclo anual o trânsito esteja melhor do que agora, se quisermos presentear o mundo com nosso carinho e com nossa responsabilidade, é preciso… pedalar. As administrações públicas são entre omissas e ignorantes em relação à mobilidade sustentável, mas deixarão de sê-lo se a pressão das ruas for cada vez maior, com o aumento da participação das viagens ciclísticas, e melhor, com a manifestação da opinião em fóruns públicos e em veículos de comunicação. Porque apenas “desejar” que as coisas mudem é insuficiente. Ou o desejo é seguido da ação, quando ela está ao alcance (e está, para a maior parte das pessoas na maior parte das suas necessidades de deslocamento durante a maior parte dos dias), ou não é digo de crédito.
O Ciclo de 2013 foi pródigo de prazerosas e frutíferas pedaladas para muita gente. Pessoas de todas as graças ciclaram por lazer e aventura, por turismo e esporte, por vontade e necessidade – e o fizeram com orgulho porque respiraram abertamente e queimaram calorias, porque não poluíram a natureza e não emperraram a cidade, porque mais do que verem paisagens, as embelezaram – e a maioria delas, no trânsito, ainda se portou com contrastante gentileza e paciência ante a má acolhida que recebem.
É assim, volta a volta no pedal, giro a giro na roda, dia a dia no calendário, que ciclistas, ciclousuários, bicicleteiros e bikers levam a mensagem da bicicleta ao mundo: aos vizinhos e aos colegas de trabalho quando saem e voltam para casa, aos motoristas e aos motociclistas estressados na via pública, às corporações e aos seus subservientes prefeitos e deputados que nadam em verbas públicas. E esta mensagem diz: um feliz ciclo novo se faz ciclando.
Fonte: Revista Bicicleta, edição 13/02
Autor: André Geraldo Soares
Texto original adaptado para o ano de 2013





