Lesões por raios da roda de bicicleta, que ocorrem nas extremidades inferiores, representam um constante problema em nosso meio. Elas atingem, principalmente, crianças inadvertidamente conduzidas, em geral, na garupa da bicicleta. Quando a bicicleta faz uma curva, o pé da criança é, de maneira inercial, impulsionado em direção aos raios da roda, causando uma grave torção, compressão ou esmagamento dos tecidos moles do pé e tornozelo, podendo estar associada à fratura da perna (tíbia e/ou fíbula), tornozelo ou ossos do pé. Essas lesões são agravadas quando os pais ou o condutor da bicicleta, aflitos, tentam com força e intempestivamente retirar a perna da criança, sem soltar primeiramente o pé dos raios.
Em muitos casos, a lesão ocorre quando duas crianças estão em uma bicicleta para apenas um ciclista. Neste caso, o passageiro geralmente se posiciona na garupa ou na barra horizontal do quadro, onde qualquer um dos pés pode ser apanhado entre os raios e a armação do triângulo traseiro ou garfo da bicicleta. Esse tipo de acidente é mais comum em crianças abaixo dos 14 anos, principalmente entre as idades de dois a oito anos, mas pode acontecer com adultos também.
A aparência inicial da lesão é enganadora. O pé pode parecer normal, ou com apenas algumas escoriações na pele, mas de 24 a 48 horas após o acidente, momento em que o pé e a perna estão edemaciados (inchados), podem aparecer áreas com graves perdas de pele.
Os primeiros socorros consistem em proteger o ferimento com uma toalha ou pano limpo, improvisar uma imobilização (papelão, ataduras ou qualquer material que proteja o membro afetado), até que a vítima seja encaminhada a um serviço médico. As lacerações usualmente afetam o tornozelo, a área do tendão calcâneo (de Aquiles) no calcanhar, ou no dorso do pé. Muitas vezes o ferimento suturado evolui para soltura dos pontos (deiscência da ferida) e necrose da pele, podendo ser necessária uma cirurgia para enxerto de pele. Como a verdadeira extensão das lesões não fica evidente inicialmente, poderá ser necessária internação hospitalar, com uma constante inspeção, nas primeiras 48 horas após o acidente, da extremidade atingida.
São reconhecidos três aspectos específicos deste tipo de traumatismo:
01 – Laceração da pele, pois os raios da roda funcionam como verdadeiras facas nesse tipo de acidente.
02 – Esmagamento por compressão entre a roda e estruturas do quadro ou garfo da bicicleta.
03 – Lesão de cisalhamento pela combinação destas duas forças.
A informação é a melhor prevenção. Informar os pais e responsáveis que utilizam a bicicleta como meio de transporte sobre os riscos é fundamental. Alertas também devem ser feitos nas escolas e creches, para que as próprias crianças já possam ser informadas e educadas.
Mudanças nas leis de trânsito, para que seja obrigatório o uso de equipamentos específicos e adequados para transportar crianças, como cadeirinhas com apoio, protetores para os pés, guarda-raios e uso de calçado fechado pela criança, poderão diminuir sensivelmente a frequência e gravidade dessa forma de acidente.
Infelizmente, são comuns as situações em que esses acidentes acontecem; por isso incentivamos o uso correto de equipamentos de proteção, e que os pais e responsáveis tenham prudência quando circularem com crianças nas bicicletas.
Fonte: Revista Bicicleta, edição 04/01
Autor: Dr. Franklin Passos de Araújo Júnior – CRM-BA 10.818
Membro titular da Soc. Brasileira de Ortopedia Pediátrica e da Soc. Brasileira de Ortopedia e Traumatologia





