De nada vale uma boa ideia sem ação. Mas, então, o que fazer?
Mude! Faça diferente. Você quer mais infraestrutura para as bicicletas? Então, o que vai surtir mais efeito: pichar palavrões e frases grosseiras na rua, ou procurar as autoridades competentes para dialogar e propor melhorias? Disponha-se a ajudar, sugira soluções. Sabemos que entupir uma cidade de carros fracassa quaisquer tentativas de mobilidade urbana. Mas os carros estão nas ruas… Os cidadãos brasileiros querem seu carro… E o governo “se vê obrigado” a construir mais estradas.
“Adoraria ver trajetos exclusivos para bicicletas no centro e também na zona norte do Rio, e imagino que quanto mais gente andar de bicicleta, mais essa necessidade vai se tornar mais clara. Enquanto isso, faço minha parte. Procuro me vestir o melhor possível quando estou de bicicleta, ainda melhor do que se fosse usar outro meio de transporte”, Márcia Fregolon dá o exemplo. Se queremos mais ciclovias, precisamos estar com as bicicletas nas ruas. Precisamos querer a bicicleta como meio de transporte. As dificuldades existem, é inegável, mas temos exemplos de cidades que superaram seus desafios e hoje estão prontas para receber os ciclistas. A pressão e as exigências de condições mínimas de segurança para pedalar devem sempre continuar, mas da forma correta. Contagie outras pessoas para aderirem à bicicleta e acompanharem você. Faça a ideia se espalhar.
Temos muitos obstáculos, é fato. Se você quer ir pedalando ao trabalho, vai enfrentar cidades com algumas subidas íngremes, o calor tropical, terá que pedalar entre os carros, e quando chegar suado não vai encontrar um chuveiro para tomar um banho nem bicicletário adequado para deixar a magrela. Novamente, o aumento no uso das bikes e a cobrança de maneira correta poderão produzir resultados. Será difícil por um tempo? Sem dúvida. Mas a exemplo de Copenhagen demonstra que as dificuldades são superáveis. Quando a cidade começou a se modelar para receber bicicletas, críticos afirmavam que a Dinamarca não era a Itália, fazendo alusão ao fato de que na Dinamarca o clima frio é muito mais rigoroso e isso impossibilitaria o uso da bicicleta. Hoje, é comum vermos fotos de pessoas pedalando em Copenhagen mesmo debaixo de neve. As desculpas não passam de muleta psicológica para a acomodação. Além disso, precisamos unificar os valores e concepções dos usuários das vias públicas. Seja pedestre, ciclista, motorista ou usuário de transporte público, com ou sem necessidades especiais, todos possuem exatamente o mesmo objetivo: se locomover. É o exercício do direito de ir e vir. E, infelizmente, até entre os ciclistas pode haver antagonismos. “Curiosamente, é nos grupos de ciclistas que percebo mais preconceito por não me encaixar na categoria ‘biker'”, diz Fernanda Guedes, quando perguntada sobre como é a aceitação e a abordagem para quem pedala Cycle Chic. Guee Siqueira relata a mesma situação. “A grande dificuldade de aceitar o conceito Cycle Chic, aqui no Brasil, partiu principalmente dos próprios ciclistas, com críticas negativas e preconceito, como se o movimento fosse apenas um modismo passageiro. Felizmente, atualmente há uma maior aceitação por parte de todos”.
“O Brasil produz e usa muita bicicleta como meio de transporte, mas a maior concentração ainda está nas cidades menores, nas áreas mais rurais e principalmente nas camadas mais pobres da sociedade. A imagem que vemos ser disseminada nos centros urbanos é a da bicicleta como atividade esportiva ou de lazer, e quem usa a bicicleta como meio de transporte deve se tratar de um fanático por bikes, um ecologista radical ou alguém sem meios financeiros para usar um transporte mais ‘digno’. Se a bicicleta não pode ser usada como um meio de transporte normal pela classe média, dificilmente ela vai ganhar status de veículo de transporte. Num momento em que a classe média baixa tem um aumento no poder de compra, o que vemos é um aumento absurdo nas vendas de motos e, progressivamente, de carros também. Isso ocorre num contexto em que faltam alternativas de transporte público de qualidade e o planejamento urbano na maioria dos grandes centros urbanos é deplorável”, afirma Tiago Leitman.
Neste cenário, duas inovações da indústria ciclística são muito bem-vindas, tanto pela praticidade, quanto pela promoção da cultura da bike no país: a bicicleta elétrica e a bicicleta dobrável. Para não chegar suado no trabalho, você pode usar a tração elétrica na ida. Na volta, depois do expediente, aí sim é hora de usar os pedais e fazer aquele exercício físico reconfortante para quem já enfrentou as pressões do dia. E com o problema da falta de espaço, a bike dobrável é compacta para guardar e pode facilmente ser conjugada com outros modais, como ônibus e metrô. Além de práticas e eficientes, essas bikes são muito elegantes e sofisticadas.
O mais importante, no final das contas, não é como você está vestido, que bike você usa, que acessórios pode ter:é utilizar a bicicleta como veículo de transporte, sem qualquer impedimento, da forma mais natural possível, inclusive no vestir.
Fonte: Revista Bicicleta, edição 10/01 – Artigo da Capa
Autor: Anderson Ricardo Schörner
Título Original: Cycle Chic
Trecho do Artigo





