Não, não é só porque faz bem pra saúde, porque os médicos recomendam, ou porque está na moda. Pedalamos pra nos sentirmos mais leves, não na balança mas na sensação que acontece toda vez que vamos deixando esse montão de coisas pelo caminho, atrás, sem peso nem culpa, conforme vamos passando. A bicicleta é nossa desculpa, a mais natural e a mais justa para não carregarmos nada além do essencial. Afinal, nela qualquer excesso, mínimo que seja, de cara escancara a vida contrariada, a bagagem desnecessária que bloqueia o prazer.
Pedalamos pelo prazer de ir descobrindo a vida por completo: subidas e descidas, disposição e cansaço, dúvida e certeza, lentidão e agilidade, uma calma veloz, alegria e tristeza, noites e manhã, loucura e lucidez. Pedalamos para nos sentirmos inteiros, do tamanho de nossa esquecida lembrança; pelo prazer vital de desviar dos fragmentos, e encarar todos os lados de uma mesma moeda, recalculando e recompondo nossa medida imensa, do tamanho de um corpo: imagens, viagens, declives, devaneios, atalhos, desvios, idas e vindas, rodas, linhas, buscas, circunferências…
Pedalamos não tanto por nossas pernas, mas por nossa memória, quase sempre tão curta. Pra reavivarmos o adormecido, e alimentar de ar e fogo e terra e água o sonho, a pulsação, a respiração, a vida. Pedalamos pra nos lembrarmos de que, sobre o selim da bicicleta, o que cabe somos nós próprios, um mundo; pra não nos esquecermos novamente de que isso é o essencial.
Pedalamos pra descobrir a cidade, não tanto a que se constrói e reconstrói na paisagem, mas a que passa deslizando no tempo. Nos minutos pedalados é que compreendemos que o tempo é mais do que uma palavra.
Pedalamos pra termos nosso momento sozinhos, e sobretudo pra que estejamos cada vez mais inteiros e abertos pro outro, cada vez e melhor acompanhados.
Pedalamos pra que os encontros aconteçam de verdade, e não pelas metades, automática e repetidamente; pra que a conversa aconteça, a escuta e o silêncio, com ou sem palavras, pra que haja, sem receio, o mergulho do olho no olho, no rodopio completo que todo encontro faz.
Sim, pedalamos pra girar nossas mentes, mudar perspectivas, mover o pensamento, deslocar a atenção, desviar da certeza; pra reaprendermos a olhar: cada objeto, cada pessoa, com sua vida peculiar; a olhar com atenção e sem pressa, mas também sabendo que desde o instante em que nosso corpo toca, e nosso olhar contempla, aquilo que é visto e tocado já está passando e ficando, transformando-se assim como nós, e no minuto seguinte, é uma outra história.
Pedalamos pra viver a passagem, a mudança, o devir; pra saber e sentir que o tempo gira, mas nunca volta; pra aprender a celebrar esse tempo. Constante, recorrente, cadenciado, o pedal nunca se repete: cada pedalada é só uma, única, e já vem outra, momento, espaço, tudo alterando. Pedalamos pra reaprender, a cada giro, continuamente, a viver cada ciclo por inteiro; pra não nos apressarmos, nem nos determos; pra reviver esse “caminho do meio” que não está em lugar algum a não ser bem aqui, no eixo de nosso corpo e mente e alma e vontade, seja lá o que for, com que nome tiver, mas que sabemos que existe, cada vez que sentimos que é o tênue equilíbrio de nossa bicicleta que nos leva.
Pedalamos pra que as palavras não valham mais do que os atos, e pra que os atos não sufoquem as palavras; pra aprender a minúcia das superfícies, dos significados, cada detalhe, e nos tornarmos mais cuidadosos e à vontade com nossos 5 mil sentidos. Naturalmente atentos no falar, no ouvir, no perceber, no tocar, no desejar, no pensar, no sentir… pra exercitar nossa capacidade instintiva, original, primitiva de estar aqui, a cada instante, giro após giro.
Sim, pedalamos pra girar por aí, pra nos concedermos, por que não?, também a possibilidade de nos confundirmos, de nos enganarmos, de nos perdermos. Pedalamos pra que o medo dos desvios, da margem, dos abismos, não nos assunte além da conta e nos paralise, mas que, pelo contrário, nos transforme, nos encoraje, nos reinvente, nos recrie.
Pedalamos pra inventar outras rotas; pra experimentarmos o fascínio da (re)descoberta, a alegria de simplesmente fazer diferente, que é fazer o que podemos, e sair do esquema, encurtar e estender o percurso, conforme o sabor e humor de cada dia.
Pedalamos pelo prazer de dançar nas ruas, e deslizar em ziguezague pelas lacunas, habitando, por um instante imenso – porque fora do tempo – esse espaço vazio, entre uma faixa e outra, entre uma e outra regra, comando, sinal.
Pedalamos pra que os sinais estejam sempre abertos, mesmo quando fechados; pra passarmos pelas beiradas, dobrar a esquina, quase no cantinho da calçada, quando a luz está vermelha e não podemos sequer pensar (e nem queremos) em abortar esse vôo, perder esse ritmo, cortar o impulso; pra saber esperar, e pararmos contentes, quando não há outro jeito, respirar fundo, reabastecer as rodas de ar, e seguir em frente.
Pedalamos porque algo em nós desvia, desde sempre e pra sempre; porque não somos tão retos, nem totalmente tortuosos. Pedalamos pelas margens do erro, onde tudo acerta e nos sentimos bem.
Pedalamos pelo consentimento, pela compreensão (e também pela dúvida) quanto ao que somos: uma mistura e uma unidade; uma confusão e uma quietude, um caos e uma porção de maneiras de nos organizar.
Pedalamos porque preferimos deixar o carro na garagem ou mais ainda, deixá-lo para sempre estacionado no passado, para que os meninos do futuro, nas aulas de história, aprendam perplexos que houve uma época em que as cidades, feitas de uma matéria nem um pouco permeável, e muito menos estética, foram ficando cobertas de fumaça, descontentamento, ansiedade, tristeza.
Mas você pode pensar que também há muitos que vão de bicicleta, não por uma questão de consciência, e sim por uma impossibilidade e falta, que é tanto de informação quanto de dinheiro: a incapacidade de enxergar esse presente, e de antever o futuro; mas, pelo contrário, de querer, assim que possível, o mais depressa, ter um carro na garagem, para poder ir pro trabalho com ele.
Sim, também se pedala porque a grana é curta, ainda mais que sonhos e palavras; e entender é difícil, e ter um carro é caro, ainda mais com o preço da gasolina, o seguro, os impostos, o mecânico, o cartel das usinas…
Pedalamos porque não aprendemos, nem nos ensinaram, a extrair o muito do pouco, o mais do menos; e só sabemos querer mais, mesmo quando o menos permanece nossa perspectiva mais certa e imediata. Por isso vamos de bicicleta, dia após dia, manhã após manhã, direto para as fábricas que produzem a sobrevivência nossa e de milhões, junto com as mercadorias de sonhos vendidos nas lojas, disseminados nos intervalos de almoço, finais de semana, dias de pagamento, em cenas de novelas, e anúncios de propaganda. Sim, aos milhares, pedalamos todos os dias, sempre na mesma direção, centenas de idas e vindas numa só vida; e não é nenhum treino para competição. Pedalamos em comboios, mesmo que sozinhos, pois é para onde todos vamos: fabricar e vender, construir e disseminar sonhos de lata, mercadorias, nas horas sem fim, até que finalmente consigamos dar a entrada, e pagar a primeira prestação desse nosso sonho já pago.
A bicicleta é o veículo de quem se desloca no extremo, o final ou o começo, pois só ela é capaz de chegar até aqui. Pedalamos porque temos consciência demais ou de menos; porque nos revoltamos demais ou nos conformamos depressa; porque já tentamos tudo, ou porque não tivemos sequer a menor chance de tentar; porque a programação da TV, todas as mensagens, já não nos interessam e convencem, ou porque tudo o que somos capazes de querer e acreditar nos vem dessas mensagens.
De carro é mais rápido, mais confortável, tem mais independência, todo mundo sabe. Pedalamos porque talvez sejamos de um tipo esquisito que prefere ir mais devagar. Ou porque talvez, na verdade são os que não pedalam que desconhecem que, muitas vezes, de bicicleta é bem mais certo chegar sem atraso.
Sim, pedalamos pela possibilidade de intuir os atalhos, experimentar alternativas, e com isso escapar dos lugares-comuns, das vias inviáveis, das opções que se mostraram inadequadas, das ruas congestionadas.
Pedalamos porque temos tempo de sobra, apesar do tempo; por já não temermos as horas, os dias, os meses; mas por respeitá-los e degustá-los. Pedalamos por sabermos que não há porque ter toda essa pressa; e também porque, quando é preciso ir mais ligeiro, basta pedalar um pouco mais.
Pedalamos pela possibilidade de inventar, na borda limítrofe, na margem extrema nosso “caminho do meio”, nosso ensaio de prazer, de vida, de paz, pra seguirmos adiante, no meio disso tudo, e ao mesmo tempo fora, sem pirar. Pedalamos porque não tem mais jeito, e já endoidamos; porque estamos fora do contexto, quando o contexto é passado, tudo o que não serve, nem alimenta, nem impulsiona mais.
Pedalamos por sermos futuros, quando o fututo é presente; por uma conversa com o tempo que sussurra no corpo de quem pedala, e lhe revela segredos.
Pedalamos por tantos motivos, e sem motivo nenhum, por um impulso, o mais instintivo que, quando vemos, já nos trouxe de lá, e estamos aqui, em cima da bicicleta.
Pedalamos não por nossa liberdade, nada disso, mas por uma imposição incontestável, que não é econômica, social, ou da mídia, mas de algo sem-nome que pulsa e respira em nós, a cada giro, mesmo quando não estamos de bike.
Pedalamos porque qualquer motivo externo, por mais decisivo, continuará sendo sempre menor do que a causa sem causa, a razão sem motivo dessa vida imediata, desse prazer gratuito e sem preço, dessa loucura tão inocente e perigosa e libertária que é pedalar.
Pedalamos porque talvez, no ato de pedalar esteja envolvido muito mais do que um ciclista e uma bicicleta; porque talvez, por mais estranho que isso pareça, apenas se mover em uma bicicleta, não signifique necessariamente pedalar.
Fonte: Revista Bicicleta, edição 01/01
Autoria: Isah Andreoni





