O Brasil é a nação com maior taxa de empreendedores no mundo.
Esta é a constatação da Global Entrepreneurship Monitor (GEM) após pesquisa realizada em 2010, comparando-o aos 58 outros países participantes. Os dados atestam a nossa capacidade criativa e o ímpeto de estabelecer negócios, desbravar mercados e de buscar o sucesso sem medo. Por outro lado, segundo o SEBRAE, 48% das micro e pequenas empresas fecham as portas entre dois e três anos de existência, e muitas já nos primeiros meses.
Transportarei esse cenário para outra realidade – a de ativistas e conscientizadores do uso da bicicleta, da mobilidade sustentável e da necessidade de estudo para a melhor integração do homem aos espaços urbanos considerando a necessidade de deslocamento.
Observamos diariamente através de contatos diretos ou em publicações em todas as mídias, frequentes movimentos, dentre os quais vários inovadores, que se desenvolvidos plenamente agregariam importantes diferenciais e novas referências para a conscientização e mobilização. Ideias, projetos embrionários, inícios de implementação, alguns sucessos e muitos traumas.
Raramente vemos alguma iniciativa de maior porte e abrangência se desenvolver e estamos convictos de que há algo em comum que atinge tanto aqueles pequenos empreendedores comerciais quanto os nossos pares idealistas: a falta de apoio sério, constante, confiante para sustentar as iniciativas promissoras.
É comum a todos a peregrinação por salas e mais salas de reuniões com um projeto embaixo do braço e o chapéu na mão. Há uma cultura estabelecida de que o empreendedor deva apresentar postura beirando a mendicância para tentar obter o mínimo de atenção de potenciais investidores, patrocinadores e apoiadores. Não bastam dados comprovadores, estatísticas mercadológicas, tendências comportamentais nem ineditismo criativo – normalmente é preciso mais, é preciso muita sorte.
Inicialmente, quando se trata de negociação para obtenção de investimento num projeto, a submissão já é promovida no primeiro contato, no qual o potencial investidor normalmente não aceita assinar o acordo de não divulgação (NDA – Non-Disclosure Agreement), entendendo como ‘ofensa’ essa sugestão do interessado. Traduzindo, não se compromete a manter sigilo sobre o projeto que lhe será apresentado, deixando claro que não há garantia de exclusividade/propriedade a partir do conhecimento do conteúdo.
O próximo empecilho listado no checklist nacional padrão dos investidores é a apresentação de um produto ou resultado plenamente funcional do objeto do projeto, ou seja: o projeto já não é mais um projeto, tem que estar sendo operacionalizado, demonstrando que tem sucesso no objetivo estabelecido. (Se tudo está funcionando, comprovado, frutificando, pra que investidor??)
Passada essa legítima porta blindada impeditiva, vem talvez a questão mais dolorosa para um empreendedor inovador: a proposta de investimento considerando a perda da propriedade original, o baixo percentual que lhe caberá e a provável perda de comando do projeto, passando o criador a ser praticamente um empregado no seu futuro negócio. Esse ritual não é regra absoluta, mas posso garantir que são pouquíssimos os que não se utilizam desses expedientes.
Mas aí alguém questionará: “afinal, pra que investidor se vocês são apenas ativistas, mobilizadores, não são empresários?” Além das barreiras para obtenção do sonhado investidor/patrocinador enfrenta-se o preconceito, ‘desinformação’ intencional e de certa forma até menosprezo dos ‘simpatizantes’ pelas iniciativas que julgam ser possível efetivar ações, promover eventos nacionais, materializar elementos, gerar informação e manter sites, blogs, páginas atualizadas sem dinheiro. E as ‘sugestões’ se estendem: “ativista tem que ser voluntário, não precisa de dinheiro”, “vocês querem é ganhar fácil, pedindo”, etc.. E assim os bons projetos envelhecem, são esquecidos ou abandonados por mais competência, criatividade e boa vontade que seus idealizadores tenham demonstrado.
Vivemos essas situações no dia a dia.
Causa-nos imensa frustração estar numa terra que aplaude iniciativas internacionais e enterra seus empreendedores. E saber que em vários outros lugares do mundo aquele projeto mesmo numa folha de papel de pão seria analisado em seu potencial e provavelmente receberia uma injeção milionária para se concretizar, beneficiar inúmeras pessoas e ainda auferir resultados financeiros ao investidor e criador.
É a cultura da parceria predatória. Primitivismo mercadológico. Ganância, egoísmo e falta de visão a médio e longo prazos. Obter sucesso nesse ambiente hostil é algo quase fantástico, normalmente casual e indubitavelmente doloroso.
Não é nada fácil, mas ninguém disse que seria. Seguimos adiante, tentando.
(Esse artigo mescla desabafo, reflexão, frustração, persistência e esperança. Somos confiantes além de otimistas, e sabemos que alcançaremos nossas metas por mais inóspito que seja o ambiente onde estamos inseridos, pois acima de tudo está a intenção de proporcionar o bem comum e da qual ninguém nos demove.)





