{"id":224,"date":"2014-04-24T22:50:37","date_gmt":"2014-04-25T01:50:37","guid":{"rendered":"http:\/\/dbike.org\/vdb\/?p=224"},"modified":"2014-11-18T20:51:44","modified_gmt":"2014-11-18T23:51:44","slug":"linha-de-desejo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.dbike.org.br\/vdb\/linha-de-desejo\/","title":{"rendered":"Linha de Desejo"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;\">O fil\u00f3sofo franc\u00eas Gaston Bachelard, em seu livro\u00a0A Po\u00e9tica do Espa\u00e7o\u00a0(1958), cunhou uma express\u00e3o interessante:\u00a0os caminhos desejados, ou\u00a0linha de desejo. Quando muitas pessoas percorrem o mesmo trajeto, aquele caminho fica marcado, a terra fica batida, a grama fica amassada, enfim, abre-se um espa\u00e7o limpo onde a maioria prefere passar. Essa \u00e9 a linha de desejo, que representa a tend\u00eancia humana para ligar aqueles dois pontos. Essa linha fica esculpida no ch\u00e3o, representa o que inconscientemente as pessoas procuram para se deslocar naquele espa\u00e7o.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;\">Qual seria o caminho desejado pelas pessoas para se deslocar? Ser\u00e1 que a engenharia de tr\u00e1fego e os urbanistas a quem se incube a miss\u00e3o de planejar as cidades se importam por qual \u00e9 a linha que as pessoas\u00a0tendem a seguir?<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;\">Essas ideias e questionamentos t\u00eam sido utilizadas pelo dinamarqu\u00eas Mikael Colville-Andersen, idealizador do conceito cycle chic, para mostrar que \u00e9 o povo que deve escolher como deseja se locomover. Ele cita exemplos de planejadores urbanos que, em algumas cidades, visitam os parques depois de uma nevasca, para ver claramente por onde as pessoas querem transitar e construir o caminho naquele trilho.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;\">Outro exemplo que Mikael cita em seu blog\u00a0Copenhagenize.com, trata-se de uma linha de desejo que os ciclistas tra\u00e7aram em Copenhague. No cruzamento de duas ruas, grande parte dos ciclistas seguia em dire\u00e7\u00e3o ao centro, mas muitos outros subiam na cal\u00e7ada para pegar outro caminho. Tecnicamente, essa atitude era ilegal, mas como eram milhares de ciclistas fazendo a mesma coisa o tempo todo, havia duas sa\u00eddas para resolver a quest\u00e3o: colocar efetivo nas ruas para fiscalizar e multar quem cometesse essa infra\u00e7\u00e3o, ou entender que aquele era um caminho de desejo das pessoas e transform\u00e1-lo em uma ciclofaixa. Optaram por tra\u00e7ar o caminho de prefer\u00eancia para as bicicletas cortando a cal\u00e7ada, porque aquele \u00e9 o caminho que os usu\u00e1rios inconscientemente desejam para se deslocar.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;\"><a href=\"https:\/\/dbike.org\/vdb\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/140424_linhadesejo002.jpg\" rel=\"wp-video-lightbox\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"img-flutuando alignright\" src=\"https:\/\/dbike.org\/vdb\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/140424_linhadesejo002.jpg\" alt=\"\" width=\"350\" height=\"219\" \/><\/a>Essa sensibilidade permite que as cidades sejam lugares para pessoas e atendam as suas necessidades. Fara\u00f4nicas infraestruturas para absorver cada vez mais carros nas ruas, estruturas estas modeladoras de atitudes que facilitem o escoamento dos ve\u00edculos (o pedestre ficar encurralado na cal\u00e7ada e o ciclista ter que abandonar a bicicleta por n\u00e3o ser bem-vindo nas ruas) s\u00e3o um erro de engenharia, n\u00e3o traduzem o desejo e a prefer\u00eancia humana.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;\">Uma cidade promotora de qualidade de vida, acolhedora, humanizada, observa os padr\u00f5es de desejo e necessidade daqueles que nela habitam ou por nela trafegam, modelando e ajustando a infraestrutura a esses padr\u00f5es. Quanto mais pessoas escolhendo o caminho certo, mais ele vai ficando marcado e atraindo outras pessoas a segui-lo.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;\">\u00c9 por isso que apenas criar ciclovias, ciclofaixas e outras variantes de faixas preferenciais para bicicletas n\u00e3o significa necessariamente, atender \u00e0s necessidades dos ciclistas. Temos publicado sistematicamente mat\u00e9rias sobre ciclovias de todo o Brasil, e o que se v\u00ea s\u00e3o aproveitamentos de espa\u00e7os inutilizados, o espa\u00e7o p\u00fablico sendo tratado apenas como instrumento de governan\u00e7a. Quando \u201csobra\u201d\u00a0uma tira, constr\u00f3i-se uma ciclovia, mas o que deveria ser levado em conta \u00e9 a demanda pelas vias, ou seja, a quantidade de bicicletas que escolhe passar por determinado caminho. O ideal seria marcar esse\u00a0caminho, n\u00e3o com sangue, como acontece tantas vezes, mas com a adapta\u00e7\u00e3o da infraestrutura para receber de maneira respeitosa e segura as bicicletas.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;\">Sim, pode ser que os pneus de nossas bicicletas tenham o poder de marcar esse caminho &#8211; a linha de desejo &#8211; e, algum dia, os urbanistas o percebam e o sinalizem. Da nossa parte, resta continuar a trilh\u00e1-lo,\u00a0conforme nossas necessidades e desejos.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em><span style=\"font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;\">Fonte:\u00a0<a href=\"http:\/\/www.revistabicicleta.com.br\" target=\"_blank\">Revista Bicicleta<\/a>, edi\u00e7\u00e3o 24\/03<\/span><\/em><br \/><em><span style=\"font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;\">Autor: Anderson Ricardo Sch\u00f6rner<\/span><\/em><br \/><em><span style=\"font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;\">Caderno: Mobilidade<\/span><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p class=\"post-excerpt\">O fil\u00f3sofo franc\u00eas Gaston Bachelard, em seu livro\u00a0A Po\u00e9tica do Espa\u00e7o\u00a0(1958), cunhou uma express\u00e3o interessante:\u00a0os caminhos desejados, ou\u00a0linha de desejo. 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