{"id":199,"date":"2014-02-06T22:27:42","date_gmt":"2014-02-07T01:27:42","guid":{"rendered":"http:\/\/dbike.org\/vdb\/?p=199"},"modified":"2014-11-18T20:54:51","modified_gmt":"2014-11-18T23:54:51","slug":"maquina-do-tempo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.dbike.org.br\/vdb\/maquina-do-tempo\/","title":{"rendered":"M\u00e1quina do Tempo"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;\">Parado na sinaleira, acompanhei aquele menino magrinho, cabelos esvoa\u00e7antes, camisa xadrez, cal\u00e7a curta, meias brancas e sapato escolar passando acelerado. A familiaridade dos gestos me chamou a aten\u00e7\u00e3o, aliada a condu\u00e7\u00e3o en\u00e9rgica, meio acrob\u00e1tica, que fazia da bicicletinha vermelha provavelmente uma nave a caminho dos confins do Universo. Num lampejo nossos olhares cruzaram e pude enxergar no dele o meu passado de aventuras em desbravadoras conquistas territoriais.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;\">Os tempos eram outros, outros os sonhos, cuidados ent\u00e3o, inigual\u00e1veis, mas os espa\u00e7os seguem iguais. Quando come\u00e7amos a sair de casa, crian\u00e7as, somos como aventureiros descobrindo novos mundos. A cada terreno vizinho e esquina alcan\u00e7ada, mistura da aud\u00e1cia com a conquista da autonomia, fazendo-nos pouco a pouco donos das rotas e rumos.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;\">Lembro-me perfeitamente: primeiros dias andando na rua, duma esquina a outra; em pouco tempo a volta na quadra e&#8230; nossa! Quanta coisa nova! Entre passeios com a fam\u00edlia pelas pra\u00e7as da cidade, cada vez mais estendidas as voltas ficavam, n\u00e3o se resumindo ao alcance dos pais &#8211; sem saberem, eu j\u00e1 beirava as cal\u00e7adas visando &#8220;o outro lado&#8221; das ruas. E assim iriam as quadras, os bairros, as cidades&#8230;<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;\">Passados anos, em sala de aula veio a conceitua\u00e7\u00e3o da sociedade, a evolu\u00e7\u00e3o dos c\u00edrculos conc\u00eantricos, limitadores, que nos rodeiam desde muito cedo. O per\u00edmetro do ber\u00e7o, as paredes do quarto, os muros do terreno, as esquinas da rua, os quarteir\u00f5es do bairro e por a\u00ed vai. Mostraram-me, e nunca esqueci, que a constru\u00edmos nesse transpassar de c\u00edrculos, ultrapassar de limites familiares, at\u00e9 chegarmos no espa\u00e7o comum a todos. E, enquanto infantes, tudo observ\u00e1vamos e sab\u00edamos do nosso entorno.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;\">Velhos tempos, antigas posturas. Hoje vivemos no mundo do &#8220;um segundo&#8221;, onde tudo \u00e9 urgente e n\u00e3o se concebe contemplar, apenas percorrer. Estamos neur\u00f3ticos, vivemos com pressa, desconhecemos os vizinhos, abominamos a espera, tornamos linear o espa\u00e7o ao nosso redor. Pior: linear e desconhecido. Procuramos as sa\u00eddas para um ritmo de vida desumano, ambientes desumanos e desumanas emo\u00e7\u00f5es. Tudo converge para um nada.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;\">Somos capazes de reverter processos destrutivos, repensar modos de vida, reciclar velhos conceitos. Estamos no limiar duma \u00e9poca de isolamento social &#8211; sim, vivemos isoladamente em sociedade, agora virtual! &#8211; e precisamos nos reambientar em nossas pr\u00f3prias cidades.\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;\">Das mirabolantes e fant\u00e1sticas at\u00e9 as mais fact\u00edveis possibilidades, encontramos numa m\u00e1quina absurdamente simples os meios para resgate do ambiente, das mem\u00f3rias, da vida e de n\u00f3s mesmos. M\u00e1quina que nos insere novamente naqueles c\u00edrculos que transpusemos e que pode nos levar a muitos outros, at\u00e9 mesmo inusitados.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;\">O menino se foi, levado pela emo\u00e7\u00e3o da aventura e fluidez da juventude. Amarela o sinal, motores roncam ao meu lado.\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;\">Despertando do passeio pelas lembran\u00e7as, ajeito-me no selim, seguro firme o guid\u00e3o e acelero em vigorosas pedaladas, en\u00e9rgico, meio acrob\u00e1tico. Mentalmente agrade\u00e7o a primeira bicicleta, aquela, vermelhinha&#8230; que me levou a transpor tantos c\u00edrculos, que me socializou e mostrou a vida em doses viv\u00edveis.\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;\">E sigo adiante, saboreando o caminho como n\u00e3o fazia h\u00e1 tempos, redescobrindo o que nunca havia visto nesse redor, feliz por ter cruzado comigo mesmo naquela esquina e mais ainda por ter resgatado aquele menino dentro de mim.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em><span style=\"font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;\">Autor: Antonio Filho<br \/><\/span><\/em><em><span style=\"font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;\">Fonte:\u00a0<a href=\"http:\/\/www.instituto.dbike.org\" target=\"_blank\">Instituto DBike<\/a><\/span><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p class=\"post-excerpt\">Parado na sinaleira, acompanhei aquele menino magrinho, cabelos esvoa\u00e7antes, camisa xadrez, cal\u00e7a curta, meias brancas e sapato escolar passando acelerado. 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