{"id":194,"date":"2014-01-08T22:20:31","date_gmt":"2014-01-09T01:20:31","guid":{"rendered":"http:\/\/dbike.org\/vdb\/?p=194"},"modified":"2014-11-18T20:56:53","modified_gmt":"2014-11-18T23:56:53","slug":"transito-e-nos-os-culpados","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.dbike.org.br\/vdb\/transito-e-nos-os-culpados\/","title":{"rendered":"Tr\u00e2nsito e (n\u00f3s?) os Culpados"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;\">&#8220;Morreu na contram\u00e3o atrapalhando o tr\u00e1fego&#8221;&#8230; A m\u00fasica de Chico Buarque nos al\u00e7a a flutuar &#8220;como se fosse um pr\u00edncipe&#8221;; expondo o que todos n\u00f3s j\u00e1 sent\u00edamos, mas que nem sempre conseguimos expressar, que \u00e9 o fato de que a rua como espa\u00e7o p\u00fablico, igualit\u00e1rio, no Brasil n\u00e3o \u00e9 de todos. Podemos imaginar ser um pr\u00edncipe com seu s\u00e9quito de seguran\u00e7as e sua limusine blindada, mas, se por um infort\u00fanio da vida somarmo-nos \u00e0s estat\u00edsticas das v\u00edtimas do asfalto a ferros neste pa\u00eds, n\u00e3o seremos mais do que um n\u00famero no rol de perdas (necess\u00e1rias?) do tr\u00e2nsito.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;\">A m\u00fasica retrata algo que o antrop\u00f3logo Roberto DaMatta apontou em seu estudo sobre o tr\u00e2nsito em que mostra como aprendemos, tacitamente, a hierarquia do espa\u00e7o p\u00fablico. Em outras palavras, aprendemos que as ruas s\u00e3o de todos os iguais, mas com a ressalva de que &#8220;alguns s\u00e3o mais iguais que outros&#8221;.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;\">Nossa heran\u00e7a aristocr\u00e1tica conduz-nos por ruas onde existir significa ser visto e &#8220;preferencial&#8221; \u00e9 a condi\u00e7\u00e3o de quem pode, n\u00e3o daquele comum que trafega quase pedindo licen\u00e7a e acenando alguma defer\u00eancia, como o pobre do ciclista ou pedestre. No tr\u00e2nsito vale mais quem tem tamanho e marca. N\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa que as SUVs s\u00e3o prefer\u00eancia do p\u00fablico, seu status \u00e9 superior em luxo e tamanho.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;\">A imprud\u00eancia e a incivilidade do tr\u00e2nsito no Brasil decorrem da aus\u00eancia de uma vis\u00e3o igualit\u00e1ria de mundo. Em um espa\u00e7o comum como as ruas, costumamos reproduzir nossos mais primitivos instintos psicol\u00f3gicos; a saber: o individualismo, a competitividade e a agress\u00e3o. Tal qual um nen\u00ea, queremos ser o &#8220;centro do mundo&#8221;, buscar o nosso prazer a qualquer custo e disputar espa\u00e7o nem que isso envolva tirar o que \u00e9 do outro ou &#8220;jogar&#8221; o nosso carro sobre o pedestre, ciclista, motociclista ou os carros &#8220;inferiores&#8221; e desqualificados por sua marca, ano de fabrica\u00e7\u00e3o ou tamanho.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;\"><a href=\"https:\/\/dbike.org\/vdb\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/140108_transitoculpados002.jpg\" rel=\"wp-video-lightbox \"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"img-flutuando alignleft\" src=\"https:\/\/dbike.org\/vdb\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/140108_transitoculpados002.jpg\" alt=\"\" width=\"427\" height=\"267\" \/><\/a>A situa\u00e7\u00e3o se torna verdadeiramente grave quando percebemos que esta conduta n\u00e3o amadurece conforme os anos v\u00e3o passando. O que pode justificar isso, visto que crescer e amadurecer, biopsicologicamente, n\u00e3o \u00e9 uma op\u00e7\u00e3o, mas uma condi\u00e7\u00e3o da vida? Voltemos a DaMatta que nos aponta um outro vi\u00e9s do comportamento do brasileiro que talvez explique esta conduta imatura no tr\u00e2nsito: a cong\u00eanita pr\u00e1tica de desrespeito \u00e0s leis.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;\">Este \u00e9 um aspecto contradit\u00f3rio, pois qualquer pesquisa com motoristas no Brasil aponta o n\u00e3o cumprimento das leis e a impunidade como um dos fatores geradores do caos. O mais intrigante \u00e9 que a maior parte destes motoristas entende que a fiscaliza\u00e7\u00e3o deva ser mais efetiva sobre os outros, mas se sente extremamente ofendido quando \u00e9 interpelado, pois aguarda em fila dupla o filho sair da escola ou transita pela ciclovia ou pela direita que est\u00e1 vazia ou ainda, quando \u00e9 multado por estacionar em cima da cal\u00e7ada quando n\u00e3o ia demorar mais do que poucos minutos.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;\">O fato \u00e9 que h\u00e1 uma dificuldade imensa do brasileiro em obedecer \u00e0s leis. A subordina\u00e7\u00e3o \u00e9 tida por estes como uma inferioriza\u00e7\u00e3o, pois aqui historicamente atrelamos as leis a quem deve subservi\u00eancia que, no imagin\u00e1rio social, significa ser o trabalhador bra\u00e7al (o escravo no Brasil imperial). As elites, tidas aqui como qualquer ator da classe m\u00e9dia ou alta, mandam. Despreza-se a quest\u00e3o \u00f3bvia de que aquele que manda tamb\u00e9m deve obedi\u00eancia \u00e0s leis que regem a conviv\u00eancia social, principalmente na representa\u00e7\u00e3o maior desta conviv\u00eancia que \u00e9 o tr\u00e2nsito.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;\">O fato \u00e9 que boa parte das leis que orientam esta conviv\u00eancia social n\u00e3o foram introjetadas, isto \u00e9, tornadas verdades para cada um. A fala que vem dos nossos motoristas costuma apresentar a ideia de que cada um &#8220;respeita&#8221; o tr\u00e2nsito. Ora, respeitar n\u00e3o \u00e9 o mesmo que obedecer, esta condi\u00e7\u00e3o pode estar atrelada ao meu &#8220;bom humor&#8221; ou a exist\u00eancia de um fiscal de tr\u00e2nsito \u00e0 minha frente, mas n\u00e3o necessariamente uma conduta internalizada (ou visceral).<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;\"><a href=\"https:\/\/dbike.org\/vdb\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/140108_transitoculpados003.jpg\" rel=\"wp-video-lightbox \"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright\" src=\"https:\/\/dbike.org\/vdb\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/140108_transitoculpados003.jpg\" alt=\"\" width=\"350\" height=\"186\" \/><\/a>N\u00e3o \u00e9 somente aumentando o n\u00famero de fiscais ou refor\u00e7ando a puni\u00e7\u00e3o que resolveremos o problema do tr\u00e2nsito no Brasil, mas \u00e9 sim criando pol\u00edticas de educa\u00e7\u00e3o para tr\u00e2nsito que contemple o motorista, o pedestre, o ciclista, o motociclista, o caminhoneiro, a crian\u00e7a etc. Todos fazemos parte deste universo modal e a forma como atuamos neste campo, diz muito de nosso jeito de ser, de nossa cultura. Culpamos &#8211; muitas vezes com raz\u00e3o &#8211; o governo pelo exterm\u00ednio compulsivo de vidas que ele promove, mas assim o fazendo nos eximimos de culpa deslocando a responsabilidade para o outro.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;\">O fato \u00e9 que somos t\u00e3o culpados quanto nossos vizinhos que marcadamente usam o tr\u00e2nsito como express\u00e3o de poder, pois referendamos um jeito de ser motorista nos nossos pequenos gestos de intoler\u00e2ncia e de hierarquiza\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o p\u00fablico.\u00a0A humildade \u00e9 um exerc\u00edcio de autoconhecimento, pena que poucos conseguem usar desta pr\u00e1tica no tr\u00e2nsito.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;\">O carro se transformou no melhor exemplo de um comportamento cultural&#8230; Ele \u00e9 a marca de nossas diferen\u00e7as, tanto pelo estilo quanto pela forma que o utilizamos. Enquanto n\u00e3o compreendermos que a nossa vida \u00e9 unica em uma sociedade que dependemos uns dos outros, continuaremos a dirigir como se f\u00f4ssemos donos do espa\u00e7o p\u00fablico sem entender que aquele que &#8220;morreu atrapalhando o tr\u00e1fego&#8221; era mais uma v\u00edtima da nossa insensibilidade e ignor\u00e2ncia.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em><span style=\"font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;\">Fonte:\u00a0<a href=\"http:\/\/www.revistabicicleta.com.br\" target=\"_blank\">Revista Bicicleta<\/a>, edi\u00e7\u00e3o 18\/02<\/span><\/em><br \/><em><span style=\"font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;\">Autor: Felipe A\u00e7o<\/span><\/em><br \/><em><span style=\"font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;\">T\u00edtulo original:\u00a0Incivilidade, Tr\u00e2nsito e (n\u00f3s?) Os Culpados<\/span><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p class=\"post-excerpt\">&#8220;Morreu na contram\u00e3o atrapalhando o tr\u00e1fego&#8221;&#8230; A m\u00fasica de Chico Buarque nos al\u00e7a a flutuar &#8220;como se fosse um pr\u00edncipe&#8221;; expondo o que todos n\u00f3s j\u00e1 sent\u00edamos, mas que nem&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":296,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_bbp_topic_count":0,"_bbp_reply_count":0,"_bbp_total_topic_count":0,"_bbp_total_reply_count":0,"_bbp_voice_count":0,"_bbp_anonymous_reply_count":0,"_bbp_topic_count_hidden":0,"_bbp_reply_count_hidden":0,"_bbp_forum_subforum_count":0,"footnotes":""},"categories":[6],"tags":[],"class_list":["post-194","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigos"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.dbike.org.br\/vdb\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/194"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.dbike.org.br\/vdb\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.dbike.org.br\/vdb\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.dbike.org.br\/vdb\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.dbike.org.br\/vdb\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=194"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.dbike.org.br\/vdb\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/194\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.dbike.org.br\/vdb\/wp-json\/wp\/v2\/media\/296"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.dbike.org.br\/vdb\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=194"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.dbike.org.br\/vdb\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=194"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.dbike.org.br\/vdb\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=194"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}