{"id":1516,"date":"2014-09-25T17:28:52","date_gmt":"2014-09-25T20:28:52","guid":{"rendered":"http:\/\/www.dbike.org\/vdb\/?p=1516"},"modified":"2014-11-18T20:47:07","modified_gmt":"2014-11-18T23:47:07","slug":"se-essa-rua-fosse-minha","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.dbike.org.br\/vdb\/se-essa-rua-fosse-minha\/","title":{"rendered":"Se essa rua fosse minha&#8230;"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;\">O que voc\u00ea faria com a rua se ela fosse sua? Digo, a que proveito ela se serviria se coubesse a voc\u00ea a faculdade de decidir isso? Como voc\u00ea gostaria de usufru\u00ed-la?<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;\">Todos somos donos das ruas, qualificadas como espa\u00e7o p\u00fablico, e est\u00e3o sob a guarda dos governantes, nossos representantes. Acontece que deve haver algo errado no meio desse caminho entre o que as pessoas querem e o que realmente \u00e9 realizado para desfruto de todos.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;\">Rola nas redes sociais uma ilustra\u00e7\u00e3o muito interessante, em que aparece um espa\u00e7o p\u00fablico urbano. Entre os pr\u00e9dios, nos seus bordos (cal\u00e7adas), h\u00e1 algumas pessoas caminhando, e outras est\u00e3o paradas aguardando o sinal fechar para poder cruzar a faixa de pedestres. As faixas, por sua vez, s\u00e3o representadas por uma t\u00e1bua, uma ponte. E o espa\u00e7o em que estaria a via de circula\u00e7\u00e3o dos carros (o maior\u00a0espa\u00e7o) est\u00e1 vazio, como se fosse um enorme precip\u00edcio. \u00c9 um lugar proibido para o pedestre: se ele pisar ali, cair\u00e1 no abismo. Assim \u00e9 a rua para quem n\u00e3o possui autom\u00f3vel, encurralado, espremido na cal\u00e7ada e com pressa para cruzar a ponte, que abre apenas por alguns segundos. No restante do tempo, s\u00e3o carros, carros, carros e mais carros que por ali passam, e quando passam, se imp\u00f5em e n\u00e3o permitem que nada\u00a0mais leve ou lento passe por ali.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;\">Evidentemente, as ruas que temos s\u00e3o para carros. O discurso humor\u00edstico <a href=\"https:\/\/dbike.org\/vdb\/wp-content\/uploads\/2014\/09\/140926_rua002.jpg\" rel=\"wp-video-lightbox\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"img-flutuando alignleft\" src=\"https:\/\/dbike.org\/vdb\/wp-content\/uploads\/2014\/09\/140926_rua002.jpg\" alt=\"O tr\u00e2nsito da cidade de S\u00e3o Paulo com suas veias e art\u00e9rias entupidas!\" width=\"350\" height=\"183\" \/><\/a>do personagem de Marco Luque, <em>o motoboy Jackson Five<\/em>, mostra a marginaliza\u00e7\u00e3o com outros usu\u00e1rios do tr\u00e2nsito, no caso, as motos: \u201cO que \u00e9 a cidade vista de cima? A cidade \u00e9 uma ferida incrustada na crosta terrestre&#8230; Um organismo pulsante, mesmo. As avenidas s\u00e3o art\u00e9rias, as ruas s\u00e3o as veias&#8230; A\u00ed voc\u00ea pensa, o que \u00e9 um motoboy? Bact\u00e9ria? V\u00edrus? N\u00e3o, n\u00e3o, n\u00e3o. N\u00f3is somo lactobacilos vivos (sic)\u201d. Se alguns motoristas veem as motos como intrusas, elas que podem desenvolver velocidade compat\u00edvel com o autom\u00f3vel, quanto mais estariam marginalizados quem se utiliza de transporte ativo (bicicleta, a p\u00e9 etc)?<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;\">A sa\u00fade da cidade, esse organismo pulsante, depende do fluxo cont\u00ednuo de suas veias e art\u00e9rias. Quando esses vasos ficam obstru\u00eddos, a cidade adoece. E a receita para obstruir as ruas \u00e9 f\u00e1cil: carro a gosto,\u00a0misturando-se com mau planejamento e indisposi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. A consequ\u00eancia de uma cidade insalubre \u00e9, segundo a Organiza\u00e7\u00e3o Mundial de Sa\u00fade, a morte de 1,2 milh\u00e3o de pessoas por ano no mundo v\u00edtimas de\u00a0acidentes de tr\u00e2nsito. Por ano, o tr\u00e2nsito brasileiro mata mais do que algumas guerras; segundo o Observat\u00f3rio Nacional de Seguran\u00e7a Vi\u00e1ria, em 2012 foram 61 mil mortes. Al\u00e9m disso, 352 mil pessoas ficaram inv\u00e1lidas permanentemente.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;\">Os caminhos que come\u00e7aram a ser abertos para o deslocamento de pessoas, seguiam o desejo de locomo\u00e7\u00e3o dos desbravadores. A cavalo ou a p\u00e9, eles limpavam o trecho, abriam clar\u00f5es, ligavam os pontos que necessitavam. Mas, com o passar do tempo e o surgimento de novos meios de transporte, essa l\u00f3gica permaneceu v\u00e1lida apenas para o ve\u00edculo automotor.<a href=\"https:\/\/dbike.org\/vdb\/wp-content\/uploads\/2014\/09\/140926_rua003.jpg\" rel=\"wp-video-lightbox\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"img-flutuando alignright\" src=\"https:\/\/dbike.org\/vdb\/wp-content\/uploads\/2014\/09\/140926_rua003.jpg\" alt=\"\" width=\"200\" height=\"300\" \/><\/a><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;\">Os caminhos dos pedestres tornaram-se mais tortuosos; os dos ciclistas, desconexos. Nas cidades atuais, chega-se de qualquer ponto a qualquer ponto de carro, geralmente pelo menor trajeto poss\u00edvel &#8211; o que\u00a0n\u00e3o necessariamente representa o menor tempo. J\u00e1 de bicicleta, dificilmente haver\u00e1 infraestrutura que ligue os mesmos dois pontos, e provavelmente o ciclista ter\u00e1 que fazer desvios em sua rota, para evitar vias expressas, por exemplo, e n\u00e3o se sentir\u00e1 seguro em todo o deslocamento. O trauma causado por esse modelo automobil\u00edstico, al\u00e9m de outras consequ\u00eancias, acaba realimentando a cultura do motor.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;\">Qualquer pessoa que saia pela primeira vez \u00e0s ruas vai perceber que toda a infraestrutura conflui para o uso dos autom\u00f3veis. Quando os vasos da cidade j\u00e1 est\u00e3o quase obstru\u00eddos, ela ganha mais vasos iguais, esperando suprir o aumento dos carros. Mas isso n\u00e3o acontece, porque os autom\u00f3veis ocupam todo o espa\u00e7o que houver dispon\u00edvel. Enquanto as veias continuarem expandindo com o mesmo formato, as \u201cmol\u00e9culas\u201d carros se distribuir\u00e3o de tal maneira que causar\u00e3o a obstru\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;\">A cura, segundo estudiosos da engenharia de tr\u00e1fego do mundo inteiro, est\u00e1 na mudan\u00e7a do modelo dos vasos. Ou seja, na mudan\u00e7a do estilo de deslocamentos, o que passa prioritariamente por uma infraestrutura que d\u00ea op\u00e7\u00f5es para as pessoas escolherem de que forma querem se locomover. Uma infraestrutura que n\u00e3o torne as ruas um precip\u00edcio, que n\u00e3o encurrale pedestres e ciclistas em espa\u00e7os min\u00fasculos, nem os obrigue a percorrer rotas tortuosas e desconexas. A cura est\u00e1 em permitir que o direito de ir e vir seja exercido com qualquer meio de locomo\u00e7\u00e3o que se queira.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;\">Restringir o uso do autom\u00f3vel \u00e9 um dos caminhos. Tamb\u00e9m a mudan\u00e7a de cultura, o despertar para a necessidade de mudar. Precisamos de pessoas que reflitam: \u201cse essa rua fosse minha, eu gostaria de n\u00e3o me sentir e nem fazer ningu\u00e9m se sentir marginalizado ou intruso nela por n\u00e3o usar um autom\u00f3vel\u201d.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;\"><em>Fonte:\u00a0<a href=\"http:\/\/www.revistabicicleta.com.br\" target=\"_blank\">Revista Bicicleta<\/a>, edi\u00e7\u00e3o 30\/03<\/em><\/span><br \/><span style=\"font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;\"><em>Caderno: Cr\u00edtica<br \/>Autor: Anderson Ricardo Sch\u00f6rner<\/em><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p class=\"post-excerpt\">O que voc\u00ea faria com a rua se ela fosse sua? Digo, a que proveito ela se serviria se coubesse a voc\u00ea a faculdade de decidir isso? 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