{"id":128,"date":"2013-04-23T19:08:06","date_gmt":"2013-04-23T22:08:06","guid":{"rendered":"http:\/\/dbike.org\/vdb\/?p=128"},"modified":"2014-06-26T22:25:59","modified_gmt":"2014-06-27T01:25:59","slug":"a-mobilidade-dos-excluidos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.dbike.org.br\/vdb\/a-mobilidade-dos-excluidos\/","title":{"rendered":"A Mobilidade dos Exclu\u00eddos"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;\">\u00c9 comum pedestres e ciclistas serem criticados, e com raz\u00e3o, por n\u00e3o respeitarem as sinaliza\u00e7\u00f5es de tr\u00e2nsito, em especial os sem\u00e1foros. Isso \u00e9 fato. No entanto, \u00e9 necess\u00e1rio entender o que h\u00e1 por tr\u00e1s de um comportamento em massa contra as regras.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;\">As cidades do Brasil privilegiam a fluidez dos ve\u00edculos automotores, sendo que as rotas dos pedestres e dos ciclistas n\u00e3o s\u00e3o delineadas, muito menos sinalizadas.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;\">Os pedestres e os ciclistas, exclu\u00eddos da mobilidade urbana, sem infraestrutura como cal\u00e7adas, ciclovias, ciclofaixas, sinaliza\u00e7\u00e3o e respeito enquanto cidad\u00e3os, caem na marginalidade e a palavra &#8220;marginal&#8221; tem a mesma sem\u00e2ntica de &#8220;ilegal&#8221;.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;\">Tudo isso \u00e9 consequ\u00eancia da exclus\u00e3o dos modais &#8220;a p\u00e9&#8221; e &#8220;de bicicleta&#8221; no planejamento urbano de nossas cidades. Pedestres e ciclistas s\u00e3o exclu\u00eddos, s\u00e3o &#8220;o\u00a0resto&#8221;, portanto marginalizados e da\u00ed caem na ilegalidade. Cidad\u00e3o sem direitos \u00e9 consequentemente um cidad\u00e3o sem deveres.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;\">Portanto, embora errada a atitude da popula\u00e7\u00e3o em n\u00e3o respeitar a sinaliza\u00e7\u00e3o de tr\u00e2nsito, \u00e9 importante entendermos que essa desobedi\u00eancia civil \u00e9 uma evid\u00eancia de que est\u00e1 passada a hora de se mudar o conceito do uso do espa\u00e7o p\u00fablico de nossas cidades.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;\"><a href=\"https:\/\/dbike.org\/vdb\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/130423_mobilidadeexclu\u00eddos003.jpg\" rel=\"wp-video-lightbox\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"img-flutuando alignright\" title=\"Ponte Estaiada Ot\u00e1vio Frias - S\u00e3o Paulo\/SP.\" src=\"https:\/\/dbike.org\/vdb\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/130423_mobilidadeexclu\u00eddos003.jpg\" alt=\"Ponte Estaiada Ot\u00e1vio Frias - S\u00e3o Paulo\/SP.\" width=\"370\" height=\"231\" \/><\/a>Falta educa\u00e7\u00e3o, mas falta adequa\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;\">S\u00e3o Paulo, por exemplo, \u00e9 uma cidade onde 80% do espa\u00e7o p\u00fablico \u00e9 ocupado para a circula\u00e7\u00e3o ou estacionamento em vias p\u00fablicas de carros. Mas os autom\u00f3veis atendem apenas 28% dos deslocamentos urbanos. Veja a discrep\u00e2ncia!<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;\">Os ve\u00edculos particulares paralisam a cidade, s\u00e3o respons\u00e1veis por 70% da polui\u00e7\u00e3o do ar, atropelam e matam 4 pessoas por dia e geram um custo social enorme. Mesmo assim a pol\u00edtica p\u00fablica n\u00e3o estimula o transporte p\u00fablico, e concentra seus investimentos em novas avenidas e viadutos que, muitas vezes, n\u00e3o permitem sequer a passagem de pedestres, de ciclistas ou mesmo de \u00f4nibus.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;\">Exemplo disso \u00e9 a\u00a0Ponte Estaiada Ot\u00e1vio Frias, aquela que enfeita o fundo do notici\u00e1rio da Rede Globo.\u00a0Essa ponte sacou 300 milh\u00f5es dos cofres p\u00fablicos e n\u00e3o permite a passagem de pedestres, de ciclistas e de \u00f4nibus.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;\">A Avenida Paulista \u00e9 outra aberra\u00e7\u00e3o. Enquanto um milh\u00e3o e meio de pedestres circulam por suas cal\u00e7adas, apenas 60 mil cidad\u00e3os nela trafegam em 50 mil ve\u00edculos por dia. Um pedestre leva no m\u00ednimo 5 minutos para mudar de cal\u00e7ada e atravessar uma esquina devido ao tempo dos sem\u00e1foros e a falta de faixas de pedestres na diagonal.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;\">E para piorar, a velocidade m\u00e1xima permitida aos carros na Paulista \u00e9 de 70 km\/h! As chances de sobreviver a um atropelamento a 70 km\/h s\u00e3o pr\u00f3ximas a\u00a0zero, assim os pedestres ao atravessarem a avenida, cruzam um corredor de balas guiadas por seres humanos suscet\u00edveis a falhas e ter\u00e3o morte certa no caso de um erro.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;\">Somente em SP, cerca de 12 pessoas morrem v\u00edtimas da polui\u00e7\u00e3o, em dias de invers\u00e3o t\u00e9rmica esse n\u00famero sobe para 20. Em m\u00e9dia, 17% dos leitos hospitalares est\u00e3o ocupados por doentes decorrentes da contamina\u00e7\u00e3o do ar. Esse custo \u00e9 pago pelo estado e pela popula\u00e7\u00e3o, e n\u00e3o pelos seguros dos autom\u00f3veis.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;\">No mundo, 250 mil crian\u00e7as morrem atropeladas por carros ao ano. Acidente de carro \u00e9 a principal causa de mortes de crian\u00e7as e adolescentes.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;\">Voltando ao tema inicial, \u00e9 comum os notici\u00e1rios atribu\u00edrem a culpa da morte de um atropelado \u00e0 pr\u00f3pria v\u00edtima que teria atravessado a rua em &#8220;lugar impr\u00f3prio&#8221;. 62% dos mortos em tr\u00e2nsito na capital s\u00e3o pedestres e ciclistas. N\u00f3s somos as v\u00edtimas!<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;\">A esmagadora maioria das pontes, dos viadutos, das direitas livres n\u00e3o tem faixa de pedestres, e os cidad\u00e3os a p\u00e9 s\u00e3o obrigados a atirarem-se em meio aos carros para se locomover. Sem falar que \u00e9 comum as faixas de pedestres estarem longe de onde existe real demanda de pedestres. N\u00e3o atendem a lei do <a href=\"https:\/\/dbike.org\/vdb\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/130423_mobilidadeexclu\u00eddos002.jpg\" rel=\"wp-video-lightbox\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"img-flutuando alignleft\" title=\"Avenida Paulista - S\u00e3o Paulo\/SP.\" src=\"https:\/\/dbike.org\/vdb\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/130423_mobilidadeexclu\u00eddos002.jpg\" alt=\"Avenida Paulista - S\u00e3o Paulo\/SP.\" width=\"370\" height=\"231\" \/><\/a>m\u00ednimo esfor\u00e7o que deveria prevalecer aos pedestres e aos ciclistas.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;\">Nunca em minha vida vi aqui na cidade um fiscal da CET sequer advertir algum motorista que, ao virar \u00e0 direita, tenha desrespeitado o cidad\u00e3o na faixa de pedestre. Muito pelo contr\u00e1rio, a atitude dessa autoridade de tr\u00e2nsito em geral \u00e9 de acelerar essa convers\u00e3o para melhorar a fluidez dos ve\u00edculos.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;\">Esse modelo est\u00e1 t\u00e3o enraizado como &#8220;normal&#8221; na popula\u00e7\u00e3o, que todos os pedestres atravessam as ruas com medo, correndo, acuados e &#8220;saindo logo da frente&#8221;, atitudes de exclu\u00eddos.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;\">Essa anormalidade vai al\u00e9m. Uma breve pesquisa sobre decis\u00f5es do Tribunal de Justi\u00e7a de S\u00e3o Paulo, em\u00a0rela\u00e7\u00e3o a atropelamentos, prova que o pedestre nunca tem raz\u00e3o se estiver fora da faixa. Mesmo na pr\u00f3pria faixa, existem casos que o pedestre foi considerado culpado &#8220;por n\u00e3o ter prestado aten\u00e7\u00e3o&#8221;.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;\">Veja bem: eu estou focando os pedestres, pois caminhar \u00e9 a forma mais natural de se locomover, imagine ent\u00e3o pedalar! Se o pedestre \u00e9 exclu\u00eddo, o ciclista \u00e9 ainda mais.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;\">At\u00e9 pouco tempo, as ocorr\u00eancias com ciclistas eram consideradas como com &#8220;outros&#8221;. No prontu\u00e1rio da CET havia como qualificar atropelamento de pedestres, de motociclistas, de animais, de carro\u00e7as e de &#8220;outros&#8221;. Ciclistas sequer figuravam como poss\u00edveis v\u00edtimas.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;\">Uma das formas para mudar esse processo seria &#8220;condenar&#8221; essas autoridades todas &#8211; os pol\u00edticos, sobretudo os do executivo, os ju\u00edzes, os fiscais da CET, os motoristas com pontos na carteira, os secret\u00e1rios de transporte, enfim, toda essa turma que acha &#8220;normal&#8221; essa situa\u00e7\u00e3o &#8211; a simplesmente caminhar ou pedalar pelas ruas de nossas cidades.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;\">A \u00fanica forma de mudar esse cen\u00e1rio \u00e9 vivenciar o problema. Assim, antes de condenar a atitude &#8220;ilegal&#8221; dos pedestres e dos ciclistas, \u00e9 necess\u00e1rio experimentar &#8220;in loco&#8221; a mobilidade urbana dos exclu\u00eddos.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;\">Esses &#8220;exclu\u00eddos&#8221; s\u00e3o a esmagadora maioria da popula\u00e7\u00e3o, uma vez que 38% dos deslocamentos urbanos de S\u00e3o Paulo s\u00e3o feitos exclusivamente a p\u00e9. Isso significa que esse cidad\u00e3o n\u00e3o combina seu deslocamento com nenhum outro modal, vai exclusivamente a p\u00e9.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;\">O principal equipamento urbano que um pedestre necessita s\u00e3o cal\u00e7adas e estas s\u00e3o da al\u00e7ada do dono do terreno, ou seja, enquanto investe-se um zilh\u00e3o de dinheiro na estrutura para os que v\u00e3o de carro e muito pouco para o transporte p\u00fablico, o estado cruza os bra\u00e7os para as cal\u00e7adas e nem se d\u00e1 ao luxo de fiscaliz\u00e1-las.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;\">Para finalizar, n\u00e3o h\u00e1 esperan\u00e7as de respeito aos ciclistas por uma sociedade que n\u00e3o respeita os seus pedestres!<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em><span style=\"font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;\">Fonte:\u00a0<a href=\"http:\/\/www.revistabicicleta.com.br\" target=\"_blank\">Revista Bicicleta<\/a>, edi\u00e7\u00e3o 02\/01<\/span><\/em><br \/><em><span style=\"font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;\">Autora: Renata Falzoni<\/span><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p class=\"post-excerpt\">\u00c9 comum pedestres e ciclistas serem criticados, e com raz\u00e3o, por n\u00e3o respeitarem as sinaliza\u00e7\u00f5es de tr\u00e2nsito, em especial os sem\u00e1foros. 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